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Quando os legionários romanos conquistaram a Inglaterra (anos 43-82 da Era Cristã) introduziram o follis e o harpastum que, ainda misturados, só ficariam distintos muitos séculos mais tarde. O jogo se estendeu pela Britânia (nome dado àquela região pelos romanos) e foi gostosamente assimilado pelos anglos e saxões. A bola fizera longa trajetória: saindo da pré-história, cruzou a Ásia, Grécia, rolou pela Roma Imperial e apareceu em terras inglesas.

 

Mas, deixemos a bola parada na Inglaterra e vamos aos gauleses, que também haviam recebido o passe de meia distância dado pelos romanos. Os conquistadores haviam levado o jogo para a França no ano 50 a.C. Os franceses travaram a pelota, mudaram o nome do jogo para soule (ou choule), aumentando a violência dos chutes, trancos e agarrões.

 

O tempo correu e o esporte continuou. Os reis das dinastias dos Merovíngios, Carolíngios e Capetos viram seus súditos participando de jogos de cidades contra cidades, quando a bola era conduzida por multidões entusiasmadas, que lutavam para levá-la à praça principal da cidade adversária, na conquista da vitória.

 

Filipe V, o Longo, tentou, em 1319, acabar com a diversão, mas não conseguiu. Ele era um rei inteligente, tratou de centralizar a administração e fundou o Tribunal de Contas. Só não teve inspiração para regulamentar o soule.

 

Carlos V, em 1369, também procurou acabar com o jogo. Apelidado o Sábio, era filho de João II, o Bom, gostava de estudar astrologia, direito, medicina, filosofia, sendo apreciador das letras e artes. Com tantas qualidades, além de ter sido hábil administrador, teve sensibilidade para restaurar o Museu do Louvre, ajudar escritores, escultores e intelectuais. Os numerosos livros que colecionou serviram de núcleo para a atual Biblioteca Nacional Francesa.

 

Entretanto, o rei andou cometendo arbitrariedades contra camponeses, que estavam revoltados contra certos costumes feudais, e tentou acabar, sem sucesso, com o soule.

 

Porém, o Parlamento francês, em 1781, resolveu finalmente acabar com o jogo, depois de um incidente com um suposto marquês, de nome Auguste Troyes. O fidalgo, conhecido pelos banquetes que promovia, comemorava seu aniversário com magnífico jantar, acompanhado de sua concubina, a fútil Anette Gundsalvus, inimiga feroz do soule. Para ela o jogo era uma "baderna de desordeiros, a merecerem chibatadas que os levassem à morte dolorosa".

 

O deslumbrante jantar era servido em ambiente de estilo rococó, em meio a lequinhos perfumados, muitos babados de rendas, plumas e paetês. O marquês, sentado em magnífica cadeira, forrada de delicada seda, ocupava a cabeceira da mesa, iluminada por candelabros dourados, adornados de fino cristal.

 

No exato momento em que o fidalgo aniversariante brindava o absolutismo e o poder divino dos reis, aquele ambiente refinado e aristocrático foi invadido por ruidosa e agitada multidão de camponeses em animada luta pela posse de uma bola.

 

Resultado: o nobre, os convidados e criados fugiram apavorados. Candelabros, vitrais, móveis e espelhos foram despedaçados. Os jogadores, além de arrasarem o ambiente, comeram todas as iguarias do jantar, disputando principalmente o apetitoso faisão, os supremos de frango e as lagostas. Além de beberem finíssimos licores, vinhos e champanhes, deliciaram-se com pavês de variados frutos (nozes, avelãs, castanhas, ameixas), musses de chocolate, pudins e outras atrações da requintada culinária francesa.

 

Por falar em chocolate, originário das Américas Central e do Sul, naquela época era uma rara especiaria tão-somente saboreada pela alta nobreza de alguns países europeus. Foi Maria Teresa, casada com Luís XIV, o Rei Sol, que introduziu o produto na França, cabendo à célebre escritora Marie Rabutin-Chantal (Madame Sévigné) divulgar a novidade em sua obra Lettres.

 

O povão, gostosamente lambuzado de chocolate, ao invadir o castelo do marquês, causara mais um episódio da guerra entre a nobreza da França e os praticantes daquele agitado jogo da bola . . .

 

Durante a confusão, além de diversos feridos, morreu uma das cozinheiras do palácio. A anciã meteu-se imprudentemente na balbúrdia, querendo repelir alguns dos invasores; mas escorregou, desabou da escada, batendo com a cabeça no chão. Piedosamente, vários jogadores tentaram socorrê-la, mas o tombo havia sido fatal.

 

 

Lavadeirinhas francesas da beira do rio Sena recolhem

roupas ante a aproximação da multidão que, no soule,

disputava a posse da bola.

 

 

Auguste Troyes, furioso com os acontecimentos, partiu na sua luxuosa carruagem rumo a Paris, para solicitar ao rei a proibição definitiva do soule. No Palácio de Versalhes, o marquês, recebido por Luís XVI, o Bem Amado, narrou os acontecimentos. O monarca, incomodado com as lamúrias, fingiu consternar-se quando soube da morte da cozinheira, cheirou uma pitada de rapé, ergueu seu leque e ordenou que ele apresentasse queixa ao Parlamento. Os deputados, impressionados com as reclamações, decidiram, imediatamente, banir o soule.

 

 

O temperamento belicoso de celtas, bretões, normandos,

anglos e saxões influía na violência do futebol.

 

 

Mas o povo, teimosamente, continuou praticando o turbulento jogo. Em 5 de maio de 1789 poucos meses após as denúncias do fidalgo, ocorreu a instalação dos Estados Gerais, iniciando os movimentos políticos e populares que levariam à destruição da monarquia, à execução de Luís XVI e Maria Antonieta, além de numerosos cortesãos e simpatizantes da nobreza.

 

Em meio à vitória da Revolução, o povo francês foi obrigado a enfrentar a reação de países que não se conformavam com a derrubada da realeza na França. Formou-se, contra os revolucionários, uma poderosa coalizão composta, internamente, por aristocratas, eclesiásticos e, externamente, por uma coligação militar integrada por várias monarquias européias.

 

Atacada, a França convocou cerca de 300 mil homens, mobilizando-se, ao som da Marselhesa, para enfrentar os múltiplos inimigos. Nesse período, os franceses, empenhados na defesa do seu território, deixaram de lado as diversões populares, entre elas o soule.

 

Nova conspiração monarquista levou a França, ao tempo de Napoleão Bonaparte, ao ataque direto contra os países inimigos. Sob o signo da águia romana, que passou a encimar a bandeira tricolor, e as majestosas abelhas de ouro que compunham as armas de Bonaparte, o exército francês invadiu a Itália, Áustria, Prússia, Rússia, Espanha e Portugal.

 

Ao longo desse período, o soule, com menos violência, continuou sendo ocasionalmente praticado, pois os franceses não podiam se dar ao luxo de gastar energias e perder tempo em diversões turbulentas. Mesmo porque os inimigos faziam alianças, uniam seus exércitos, empreendendo incursões contra as fileiras de Napoleão.

 

Durante o breve armistício de Pleswitz, em 1813, os franceses puderam folgar um pouco dos combates, que foram substituídos pelas diversões habituais, entre elas o sempre apreciado jogo de bola. Várias disputas aconteceram em acampamentos militares, com a pelota rolando entre os canhões provisoriamente silenciados.

 

Em meados do século XIX, no período que se sucedeu à derrota definitiva de Napoleão em Waterloo, o soule foi intensamente praticado, porém influenciado pelos sistemas mais organizados do futebol inglês (que havia evoluído após a liberação decretada por Jaime I, como veremos depois) e pelas modalidades do calcio italiano. (Ver capítulo seguinte).

 

Nas invasões militares a outros países, os franceses haviam aprendido que o futebol poderia ser jogado sem agressões, trancos, pescoções, socos e pontapés. . .