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A bola inglesa saltou o Canal da Mancha, atingiu todo o Continente Europeu, superando todas as práticas antiquadas, atravessou oceanos e chegou ao Brasil.

 

Existem várias referências à entrada do futebol em nosso país: introdução do jogo no Colégio São Luís, em Itu, São Paulo, 1872; marinheiros do navio Criméia que jogaram movimentada pelada, no Rio, num terreno na Rua Paissandu, em 1878; partidas em Jundiaí, 1882; jogos em São Paulo, na chácara da família Dulley, além de outras versões.

 

Certamente, entre os funcionários das empresas britânicas (ferrovias, tecelagens, companhias de força e luz, telefônicas etc.) que se instalavam em todo o território nacional, em fins do século XIX, houve partidas de futebol, pois a diversão era comum entre o pessoal da colônia inglesa.

 

Porém, oficialmente é atribuído a Charles Miller a introdução do futebol em nosso país. Ele nasceu no bairro do Brás, São Paulo, em 1874, de pai inglês e mãe brasileira. Em 1884, após os estudos primários, foi enviado ao Banister Court School, em Southampton, onde conheceu o futebol. Integrou a seleção do condado de Hampshire, atuando como center-foward. De volta ao Brasil, em 1894, trouxe a bola e as regras do jogo, levando-as para o São Paulo Athletic Club.

 

Charles Miller, ao introduzir o futebol em São Paulo, foi organizador e jogador. Como centroavante, era impetuoso, não ficava na “boca de espera” aguardando receber a bola e costumava buscar jogo em todas as partes do campo. Conquistou enorme popularidade e uma de suas jogadas prediletas, feita com perfeição, a de amortecer a bola com a parte externa do pé, ficou conhecida como charles.

 

O craque anglo-brasileiro jogou até 1910, depois atuou como árbitro até 1914, vindo a falecer em 1953, aos 79 anos.

 

Por sua vez, quem introduziu o futebol no Rio, em 1901, foi Oscar Cox, após seu regresso da Suíça, onde havia estudado. Trazendo as regras e o material esportivo, Cox organizou partidas entre sua equipe e outra integrada por associados do Rio Cricket and Athletic Association, de Niterói, e foi um dos líderes na fundação, em 1902, do Fluminense.

 

No Brasil, no final do século XIX, não havia esportes populares. As diversões eram jogos carteados (entre eles o voltarete e a bisca) passeios, danças, teatro, festas folclóricas, carnaval, corridas de cavalo etc. O cinematógrafo (que antecedeu ao cinema) era novidade que causava sensação. Práticas físicas ou esportivas não eram comuns.

 

Todavia, entre nossos indígenas a atividade do corpo era bastante intensa, conforme anota o escritor Luiz Edmundo, no livro “O Rio de Janeiro do Meu Tempo”:

 

Nicolau de Villegaignon ao aportar na cidade pôde encontrar os tamoios praticando a natação, destros e desenvoltos remadores que, sobre agilíssimas pirogas (canoas), viviam cruzando as águas da formosa Guanabara. Eram homens plásticos e fortes que, além de nadar e remar, viviam saltando, correndo ou em atividade guerreira, subindo encostas, atingindo cumes, penedos, varando, em rasgos magníficos e arrojados, a espessura confusa das florestas.

 

Luiz Edmundo chamava a atenção para o fato de que os historiadores comparavam aqueles ágeis e musculosos indígenas, a Golias, o gigante filisteu mencionado na Bíblia.

 

 Porém, nossa mocidade daquele tempo não era habituada aos esportes, exceção dos que faziam ginástica, levantamento de peso, pelota basca ou frontão, práticas geralmente trazidas por imigrantes. Entretanto, havia um tipo de competição, a canoagem, bastante apreciada. Em 1846, a imprensa destacava uma disputa, no Rio, entre duas canoas, “Lambe-água” e “Cabocla”. Em 1851, um grupo do Rio, os “Mareantes”, promoveu corrida náutica de grande sucesso.

 

As regatas, melhores organizadas, em ioles, chegaram ao Brasil em 1880, através dos alemães, com as primeiras competições no Clube Guaíba de Porto Alegre. Em São Paulo, o pioneiro foi o Clube de Regatas Santista. No Rio de Janeiro, em 1887, fundou-se o Clube de Regatas Guanabara, e em todos os Estados desenvolveram-se clubes náuticos.

 

Mas, por que o futebol se tornou o esporte mais popular do Brasil ?

 

Porque, como simples diversão, é praticado em qualquer terreno, na rua, praia, no quintal etc., dispensando equipamentos ou uniformes. Joga-se até com bola de meia e as balizas do gol podem ser improvisadas com pedras, pedaços de pau, galhos de árvore, peças de vestuário, chinelos, sandálias etc.

 

O jogo não impõe discriminação racial ou distinção social, colocando-se ao alcance de brancos, mulatos, pretos, ou marajás, ricos, remediados, pobres e indigentes. Também não discrimina quanto ao físico, pois ao contrário do basquete e vôlei (que exigem elevada estatura) ou da ginástica olímpica (que requer baixa estatura e pouco peso), o futebol permite que qualquer baixinho passe a bola por entre as pernas de qualquer grandalhão . . .

 

Por isso, no Brasil, cheio de contrastes sociais, o jogo popularizou-se com enorme rapidez. Cria heróis, movimenta fortunas, possibilita amplo mercado de trabalho, proporciona opções vocacionais (escolinhas) e é excelente para o desenvolvimento físico.

 

De quatro em quatro anos, a Copa do Mundo estabelece sólidos sentimentos comunitários e faz explodir impressionante delírio cívico. É o período em que a pátria calça chuteiras, o povo esquece seu sofrimento na expectativa de conquistar mais um título de Campeão Mundial de Futebol.

 

Charles Miller, o pai do futebol no Brasil.