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Há divergências entre historiadores quanto a origem do futebol na Inglaterra. A maioria confirma a versão de que foram os romanos os introdutores do harpastum. Outros pesquisadores admitem que o jogo já existia na Bretanha antes do desembarque dos invasores. O certo é que o jogo da bola envolvia centenas de competidores que lutavam para levar a pelota até a praça principal da cidade adversária. Na Idade Média, quando o jogo era conhecido como Derbyshire, realizavam-se na cidade inglesa de Ashbourne, durante a Shrove Tuesday (espécie de terça-feira gorda) partidas que comemoravam a vitória do povo bretão sobre os romanos num confronto realizado no ano 217 (d. C.).

 

Em Chester, cidade inglesa fundada pelos romanos, o jogo marcava as festas anuais, reunindo quinhentos competidores, de cada lado, que tentavam conduzir a bola até os limites da cidade. O melhor sapateiro era escolhido para fazer a bola, de couro, cheia de ar; ele também era quem dava início ao jogo, lançando a pelota para o alto. A realeza detestava a diversão, preferindo a cavalaria e os combates de lança e espada. Em 1297, durante a guerra entre Escócia e Inglaterra, o rei Eduardo I proibiu a diversão, receando que seus soldados trocassem as armas pela bola, comprometendo a seriedade do conflito. Porém, não obteve muito êxito, pois as competições prosseguiram, cada vez mais tumultuadas.

 

Outro rei, Eduardo II, em 13 de abril de 1314, mandou afixar em Londres o seguinte decreto:

 

Porque se produzem grandes ruídos na cidade, ocasionados por escaramuças em volta de pelotas de grande tamanho, do que resultam muitos males, o que Deus não permite; em nome do Rei, ordenamos e proibimos, sob pena de prisão, que se pratique daqui por diante tal jogo nas cidades.

 

O monarca morreu em 1327 sem conseguir que sua ordem fosse totalmente cumprida. Seu sucessor, Eduardo III, que começou contra a França a Guerra dos Cem Anos, também tentou extinguir o jogo, mas não teve êxito. Entretanto, em 1349, outro Eduardo, o IV, mandou seus agentes varrerem a Inglaterra de qualquer vestígio de futebol, fazendo com que os cárceres ficassem cheios de jogadores. Nesse período difícil foi registrada a prisão de um esperto cidadão chamado Denis Woogan, condenado a seis anos de masmorra por organizar algumas partidas e apostar nos resultados.

 

Na Escócia, Ricardo II, neto de Eduardo III, também manteve rigorosa proibição do futebol, estendendo-a a outros tipos de jogos, isto em 1389. Por outro lado, Henrique IV, que iniciou a dinastia de Lancaster, também neto de Eduardo III, reforçou as anteriores decisões reais contra o futebol.

 

Ainda na Escócia, Jaime I (não confundir com o esclarecido Jaime VI, que vai ser citado em capítulo mais adiante) apresentou ao Parlamento a seguinte decisão:

 

Por este estatuto, o rei proíbe que qualquer homem jogue futebol, sob pena de multa de 50 xelins, a ser paga ao senhor da terra onde ele jogou, ou ao corregedor, ou a seu ministro.

 

Apesar de tudo, o futebol era tão atrativo que, pasmem, em certas paróquias os padres, ardilosamente, organizavam jogos entre meninos, partidas que se realizavam disfarçadamente atrás dos muros. Os padres corriam sérios riscos, não só pela desobediência aos reis, mas também aos seus superiores religiosos, pois a Igreja em zelosa defesa dos “bons costumes” condenava o futebol.

 

Entre os séculos XV e XVI a Inglaterra era um péssimo exemplo de justiça social. O poder real, que se consolidara ao longo dos séculos anteriores, produziu um feudalismo impiedoso. Os nobres e os ricos mandavam e desmandavam nas terras, expulsando camponeses, extorquindo fazendeiros arrendatários. Os soldados que regressavam de guerras no estrangeiro eram liberados de seus deveres militares e jogados ao ócio e à miséria.

 

O historiador John Brewer, narrando a situação da Inglaterra naquela época, apontou a carência de asilos e hospitais; o excesso de maus tratos à população; a desumana indiferença para com os pobres, que morriam abandonados em lugares públicos. Os soberanos eram ditadores absolutos, exercendo opressão e corrupção. Nas relações internacionais, as fraudes e os artifícios eram armas largamente usadas pela diplomacia.

 

O historiador não mentiu. A situação era deplorável. Sir Thomas More (pensador e estadista) escreveu em 1516 sua famosa Utopia, condenando aqueles abusos sociais. More previa para os habitantes de uma sociedade ideal, entre outros confortos e conquistas, a prática de jogos sadios, devidamente organizados. Thomas More acabou preso na Torre de Londres, condenado e executado por ordem de Henrique VIII.

 

Protestantes, católicos e nobres inconformados com o despotismo do rei eram acossados e forçados ao abandono de suas idéias. Caso contrário, passavam por julgamentos sumários, jogados nos cárceres e decapitados sob o golpe do machado dos carrascos.

 

O rei não tinha grandes preocupações com os jogos populares, pois eles não representavam perigo para a estabilidade da corte. A repressão mais severa ficava por conta da nobreza, que não diminuía sua histórica aversão ao futebol.

 

Após a morte de Henrique VIII, subiu ao trono seu filho, e de Joana Seymour, com o nome de Eduardo VI. O novo regente, de apenas 9 anos de idade, necessitou da proteção do duque de Somerset (Edward Seymour, irmão de Joana), um nobre mais comedido, tolerante e sensível ao sofrimento do povo, qualidades que o levaram a abolir grande parte das medidas arbitrárias de Henrique VIII. Todavia, o duque também acabou executado, em 1552, aos 46 anos de idade.

 

Outro nobre inglês, também com o título de Somerset, nascido 42 anos depois da morte do duque, será mencionado em capítulo mais adiante, no enfoque da corte de Jaime I, como um influente aristocrata que tinha certas simpatias pelo futebol.

 

Estranho que em meio a tanta violência, marcada pelo morticínio dos adversários do poder real, a maioria da nobreza renovasse esforços para coibir a diversão do povo, que apenas queria fazer a bola rolar até o reduto final dos oponentes.

Toda a realeza inglesa, entre os séculos XIII e XV,

exerceu forte pressão contra o futebol. Vários Eduardos,

alguns Henriques e dois Ricardos tinham horror à bola . . .