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Voltemos à Inglaterra e à aversão da nobreza, principalmente puritana, contra o futebol. Na peça O Rei Lear (1606), de William Shakespeare, o personagem Kent chama um servo de “desprezível jogador de futebol” e lhe dá violenta rasteira. No livro A Anatomia dos Abusos, o autor Philip Stubbs, diplomado em Oxford e Cambridge, classificou o futebol como “jogo bárbaro, que só estimula a cólera, a inimizade, o ódio, a malícia e o rancor”.

 

Mas, em 1566 nasceu o príncipe Jaime, filho de Mary Stuart e Lord Darnley, que se tornou rei da Escócia e Inglaterra. O soberano gostava da boa leitura e escreveu livros de importância (Demonologia, 1597, e Impugnação ao Tabaco, 1604); resistiu às pressões religiosas, enfrentando os que ameaçavam explodir o Parlamento (Conspiração da Pólvora); patrocinou nova tradução da Bíblia, trabalho feito por 47 escritores; ordenou a fundação das colônias de Jamestown (Virgínia) e Plymouth (Massachusetts), na América do Norte.

 

Jaime I (VI da Escócia) lendo a Comédia dos Erros, de Shakespeare, interessou-se pelo seguinte diálogo:

 

- Rolo para vós, que me haveis tomado por bola de futebol, passando-me, assim, a um outro; me lançais daqui e ele me atira de lá. Se hei de continuar neste ofício devereis forrar-me de couro.

 

O rei pensou numa linha de passes e, naquele momento, deu um estalo na sua cabeça: o futebol devia ser liberado. Mesmo porque Jaime havia observado, em suas viagens pelo Reino Unido, que a maioria da população masculina vivia no ócio, na esbórnia e bebedeira. Certa vez, sua comitiva passou no Condado de Lancashire, onde o povo aglomerava-se diante de uma taberna, onde ocorria enorme confusão causada por grupos rivais embriagados. O taberneiro, interrogado por um conselheiro do rei sobre as causas da balbúrdia, justificou-se afirmando que "o povo, impedido de outras diversões, preferia beber, discutir e brigar".

 

Jaime, voltando à corte, reviu todos os decretos contra o futebol e percebeu o erro que, ao longo de vários séculos, fora cometido. O povo, principalmente os homens, precisava exercitar-se para combater nas guerras contra outros países. A boa prática esportiva, convenientemente disciplinada, serviria também, segundo o rei, para atenuar os constantes conflitos entre os puritanos (membros de uma crença evangélica, de severas convicções, que afirmavam saber interpretar devidamente o sentido literal das Escrituras Sagradas), os papistas (católicos) e os anglicanos (membros da religião oficial da Inglaterra, fundada por Henrique VIII). Além disso, parte da população não cumpria o culto aos domingos e dias santos. Assim, o rei redigiu e fez divulgar a Declaração dos Esportes, na qual há os seguintes trechos:

 

(...) O relatório desta crescente alteração entre eles, tornou-nos ainda mais tristes quando, com nossos próprios ouvidos, ouvimos a queixa geral de nosso povo de que ele foi impedido de praticar qualquer recreação ou exercício legal, no domingo, à tarde, após o término de todo o culto divino, fato que só pode causar dois males: um, o impedimento da conversão de muitos, de quem seus padres aproveitarão para discutir, persuadindo-os de que nenhuma recreação honesta é legal ou tolerável em nossa religião, o que pode criar um grande descontentamento no coração do nosso povo. Um outro inconveniente é que esta proibição impede as pessoas de usarem tais exercícios, já que eles podem tornar seus corpos mais aptos para a guerra, quando nós ou nossos sucessores tivermos ocasião de usá-los, e em seu lugar cria bêbados imundos e um número de discursos fúteis em suas adegas. Qual é o outro dia, que não aos domingos e dias santos, que o povo comum tem folga para se exercitar, já que eles precisam trabalhar e ganhar a vida nos dias úteis ?

(...) E no que concerne à recreação legal de nosso bom povo, nosso prazer da mesma forma é que, após o término do culto divino, nosso bom povo não seja incomodado ou desencorajado a fazer qualquer recreação legal, tais como dança, tanto para homens como mulheres, tiro ao alvo para homens e outros esportes usados, para que os mesmos sejam desfrutados no tempo devido e conveniente, sem impedimento ou negligência do culto divino.

 

 

 

 

 

Registro Importante

 

A cópia do texto completo da Declaração dos Esportes, impresso pela Universidade de Cambridge, em 1930, foi obtida em maio de 1978, graças à gentileza de funcionários dos escritórios da Scandinavian Airlines System, em Londres e no Rio, merecendo destaque especial o meticuloso trabalho daqueles que fizeram a tradução do documento real, escrito no inglês arcaico do século XVII.

 

 

 

 A iniciativa do soberano da Inglaterra e Escócia foi influenciada por outros fatos, não somente os que aqui estão mencionados. Apesar dos conflitos religiosos no período do seu reinado, 1603 / 1625, o monarca que sucedera a Elizabeth era predisposto ao entendimento e conciliação entre calvinistas, anglicanos, puritanos e católicos, procurando evitar que os problemas religiosos acabassem transformados em divergências políticas; mas, em várias questões não obteve êxito. Jaime era um defensor obstinado da tese do direito divino da realeza, o que levou a Câmara dos Comuns a posição contrária, através de uma declaração (o Ato de Apologia, de 1604) que difundiu a célebre sentença: “A voz do povo é a voz de Deus”.

 

Na liberação dos esportes, Jaime também deixou-se influir pelas conversas com Robert Carr, conde de Somerset, e George Villiers, duque de Buckingham, nobres que se tornaram favoritos do rei. Ambos eram espaçosos e ambiciosos, mas sensíveis aos apelos populares, além de discretos simpatizantes do futebol.

 

O monarca da Inglaterra e Escócia realmente ouvia os mais íntimos e sabia refletir sobre o que falavam. Entre os que conviviam com o soberano estava o cientista William Gilbert, médico da Corte desde os tempos de Elizabeth I. Cabeça privilegiada, consagrado como "pai da ciência experimental", "fundador das ciências elétricas e magnéticas", Gilbert derrubou rígidas crenças medievais. No campo do magnetismo, acreditava-se que sua força diminuía durante a noite, mas podia ser reativada se o ímã fosse mergulhado em sangue de bode; que as propriedades magnéticas serviam para reconciliar casais; atrair ouro de minas profundas; desorientar e afastar maus espíritos, além de outros absurdos atributos.

 

Dedicado principalmente ao estudo do magnetismo e do fenômeno da atração elétrica, Gilbert introduziu a palavra "eletricidade", do grego elektron (âmbar), além de outros termos (como "meridianos magnéticos") atualmente empregados na física. Seu nome designa a unidade de força magnetomotriz, no sistema c.g.s. (comprimento, massa e tempo). Jaime I interessava-se pelos estudos de William Gilbert, comparando-os com os velhos preceitos gerados, principalmente, pelo fanatismo religioso, que, por exemplo, impunham ser a Terra imóvel, centro de um Universo finito. Imposições que, no século 17, por sentenças do Tribunal do Santo Ofício, na Itália, humilharam Galileu Galilei e mataram, na fogueira, Giordano Bruno. A mesma prepotência que estigmatizava o futebol, esconjurado como "prática inspirada pelas malignas exalações do inferno".

 

Outra benéfica influência sobre o rei foi a arte de John Dowland, compositor inglês, formado em música pela Universidade de Cambridge e alaudista da corte. Seus madrigais, de raízes populares, eram marcados por suave melancolia, como o famoso Weep you no more (Não chores mais). Dowland era também um apreciador do futebol.

 

Shakespeare, Somerset, Villiers, Gilbert, o som do alaúde e o temperamento conciliador de Jaime muito contribuíram para o golaço do rei . . .

 

Em 24 de maio de 1618 publicou-se, em Greenwich, a proclamação real, que ficou conhecida como Declaração dos Esportes, confirmada pelo rei Carlos I, em 1633. A iniciativa do rei Jaime provocou a liberação do futebol e, desde então, o jogo alastrou-se, decresceram os tumultos e, lentamente, o divertimento foi sendo disciplinado.

 

Jaime I morreu em 1625, mas sua memória não tem sido lembrada no futebol. Não há nenhuma competição importante, internacional, em homenagem ao soberano que liberou o jogo.

 

Naquela época, a Inglaterra já havia tomado conhecimento do jogo organizado, praticado pelos toscanos. Em 1600 o visconde de Dorchester assistiu a um jogo em Florença; em 1656, Henry Carey traduziu o livro I Raggbagli di Parnasso, onde é descrita uma partida de calcio. Em 1660, o rei Carlos II autorizou um confronto entre seus criados e os servos do duque de Alba.