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Decorreram muitas décadas e o jogo continuou sendo praticado na Inglaterra, com o povo resistindo às repressões, embora muita gente fosse presa por desobediência às decisões reais. Nos tempos de Elizabeth I (coroada em 1558 e que reinou por 45 anos) vivia nos arredores de Coventry um sujeito chamado Martin Saint, de origem obscura, que gostava de servir à nobreza, adulando os lordes, desprezando maior convívio com os pobres. Em torno dele pululavam alguns serviçais, entre eles o escudeiro-mor Coney, indivíduo que, prepotente com os humildes, diante dos superiores agia com total subserviência.

 

Além de Coney, havia o desleixado cocheiro Charvers e a criada Regine, capaz das mais incríveis simulações. Completando o “team” de Martin (como ele gostava de designar seus serviçais) havia Bishop, um indivíduo de raciocínio rudimentar, mas que se achava dono de inteligência superior.

 

Esses serviçais, sempre que podiam, delatavam ao patrão qualquer jogo de bola praticado por populares. Martin, por sua vez, corria aos castelos para denunciar o fato. A investigação era imediata, causando pronta e severa punição dos jogadores e até de quem não jogava, mas apenas assistia.

 

Mas, Martin e seu “team” acabaram caindo em desgraça. Elizabeth I havia tomado iniciativas em favor dos pobres, o que desagradou alguns cortesãos, descontentamento que se agravou quando a soberana assinou o Estatuto dos Aprendizes, ou Artífices, legislação que contrariou interesses de Martin, pois ele se acostumara, em conluio com certos nobres, à exploração do trabalho do povo em favor dos ricos. Descontente com a Coroa Britânica, Martin e sua abominável turma começaram a falar mal da rainha.

 

Nesta época, corriam rumores sobre romances de Elizabeth com seu amigo de infância Robert Dudley (conde de Leicester) e William Cecil (secretário da rainha). Esses boatos eram perigosos, pois colocavam em dúvida a honra e a virgindade da soberana. A integridade do hímen real era motivo de orgulho para muitos ingleses, valendo notar que a Colônia de Virgínia, na América do Norte, por iniciativa de sir Walter Raleigh, teve esse nome em homenagem à “intocabilidade” de Elizabeth . . .

 

Outro fato que causou impacto foi a excomunhão da rainha, decretada pelo Papa Pio V, em 1570. Mas, como o Vaticano não tinha poderes sobre a Inglaterra, a excomunhão e deposição de Elizabeth, também ordenada pelo pontífice, não tiveram nenhum efeito.

 

Martin Saint e seus criados jamais perdiam oportunidade para criticar Elizabeth. Sua virgindade e a excomunhão já haviam servido para imprudentes chacotas; porém, a maledicência maior aconteceu quando surgiram boatos sobre um romance entre a soberana, com 53 anos, e Robert Devereux (conde de Essex), de 20 anos.

 

O caso serviu para Regine entrar em ação. Exibindo grande desenvoltura e ridícula teatralidade, a criada pôs em dúvida a honra da rainha e acabou sendo detida para esclarecer seu leviano comportamento. Cínica e ardilosamente, lançou a culpa sobre Martin Saint e seus serviçais, admitindo, com detalhes, e até exageros, que eles eram perigosos inimigos da Coroa. Regine pretendia com as delações atenuar sua culpa e livrar-se de castigo maior. Contudo, toda a súcia de Martin, inclusive ela, acabou trancafiada nas masmorras, onde caíram nas unhas daqueles jogadores de futebol que haviam sido presos por suas denúncias.

 

Anos depois, em 1597, quando da inauguração do primeiro water-closet (vaso sanitário) inventado por sir John Harington e instalado no castelo de Richmond, o cocheiro Charvers fez, em tabernas e antros, grosseiras galhofas de mau gosto e de mau cheiro, ridicularizando a higiênica inovação, tudo sob espalhafatosas gargalhadas da turma de Martin, que apesar dos anos e da prisão anterior permanecia incorrigível. Novamente detidos, os componentes do bando foram jogados no cárcere, sofrendo mais uma vez hostilidades de presos que cumpriam pena pela prática do futebol.

 

É oportuno salientar que Harington, o inventor do water-closet , era afilhado da rainha, possuía o título de sir e notabilizava-se pelos estudos de física e mecânica. Conhecia os numerosos trabalhos de Leonardo da Vinci, incluindo sistemas hidráulicos. Harington admirava a Renascença italiana, sabia do calcio e idealizava que o anárquico e tumultuado futebol inglês tivesse a mesma organização inteligente do esporte que se praticava na Toscana.

 

Numa análise geral da prática do futebol na Inglaterra, fica evidente a aversão da nobreza medieval ao jogo, intolerância que, em verdade, mostrou sinais de alguma diminuição nos tempos de Elizabeth. A rainha, embora mantivesse a repressão dos seus antecessores, tinha preocupações maiores, como a perigosa rivalidade com a Espanha, a expansão do comércio marítimo, a conquista de novos territórios em outros continentes, além dos renovados conflitos religiosos, principalmente entre católicos e anglicanos, desavenças que comprometiam a linha sucessória do trono.

 

Como Elizabeth não tivera filhos, sua sucessão causava preocupações. Sem herdeiros diretos, o trono da Inglaterra anglicana passaria a Mary Stuart, católica, soberana da Escócia. Daí, o surgimento de intrincadas questões, agravadas pelo fato de Mary haver traído seu marido, Lord Darnley, ao se apaixonar por James Hepburn, conde de Bothwell. Antes, a rainha escocesa já havia se envolvido amorosamente, conforme suspeitavam, com um plebeu, o músico italiano David Rizzio. Este acabou, a mando de Darnley, assassinado a facadas diante de Mary, num crime que objetivava não somente vingar a honra do marido, mas também provocar um aborto na rainha.

 

Mary e Bothwell foram acusados da morte de Lord Darnley quando este foi vítima de misteriosa explosão numa casa de campo nos arredores de Edimburg. O casamento da rainha com seu amante, apenas três meses após a morte suspeita de Darnley, foi um choque para os escoceses, gerando descontentamento do papa, da Espanha e da França. Estes reinos católicos abandonaram o apoio político à rainha, ao mesmo tempo em que revoltas populares na Escócia obrigaram Bothwell a fugir, deixando a rainha à mercê dos seus inimigos.

 

Mary foi deposta e encarcerada; porém, menos de um ano depois conseguiu escapar para a Inglaterra, onde pediu proteção a Elizabeth. Mas, em meio a intrigas, acabou sendo encarcerada, embora gozasse de certos confortos e algumas liberdades, situação que, segundo seus acusadores, teria ensejado conspirações da escocesa contra o trono inglês. Apesar de ter protestado inocência, Mary Stuart foi julgada e condenada à morte. A execução ocorreu em 18 de fevereiro de 1587, no castelo de Fotheringay.

 

Entretanto, de toda a tragédia da vida de Mary Stuart sobreviveu aquele que havia se tornado rei da Escócia e anos depois, na qualidade também de rei da Inglaterra, haveria de promover a libertação do futebol.