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Murilo Brasil, desde 1967 no jornalismo, publicou centenas de crônicas, comentários, pesquisas etc., sobre variados temas. Aqui estão reproduzidos alguns desses trabalhos.

 

 

 

O GRILO E A MORTE DA SEGUNDA PESSOA DO PLURAL

Um pequeno inseto, desses que a zoologia chama de ”saltatórios”, acercou-se de mim, com suas antenas e seu aparelhinho musical, anunciando um protesto. O grilo, era um grilo falante, começou por criticar o descaso que, para ele, existe atualmente na língua portuguesa:

— Olha, vocês escribas de jornais e outros veículos de comunicação, estão irremediavelmente limitados pelo uso de um vocabulário curto. Vez em quando, leio jornais e publicações várias, sem encontrar aquela riqueza de termos de muitos decênios atrás. Dava gosto trafegar os olhos na opulência idiomática de um Rui Barbosa formando frases ricamente adjetivadas!...

Surpreso e “grilado” com a visita e a bronca da diminuta criatura, respondi:

Bem, meu gentil amiguinho, você deve entender que a linguagem de hoje há de refletir um modo de falar atual. Compreenda que nossa língua passa por período de transição, uma evolução necessária.

Intransigente na defesa das mais legítimas tradições dos clássicos portugueses, o grilinho rebateu:

— Mas, que raios de evolução é essa? A linguagem sintética que vai por aí parece código cifrado: legal, palavra respeitabilíssima nas suas configurações jurídicas, foi retirada dos ambientes austeros dos tribunais e hoje vive surrada por usos e abusos. Fico rubro de cólera quando ouço a palavra paca ser empregada a torto e a direito por bocas que já nem atentam para suas implicações pornográficas!..

Procurei explicar ao caprichoso e puritano inseto que tais implicações somente existiriam nas mentes maldosas; porque na mania de síntese, que sem dúvida vai por aí, a palavrinha — longe de ter raízes em palavrão — seria apenas uma simplificação do termo “para caramba”.

O grilo arqueou as antenas e garbosamente proclamou:

— Rejeito os argumentos! Neologismos, corruptelas, gírias e quejandos, devem ser banidos, embarcados e mandados de volta para as regiões incultas de onde vieram!

Já de antenas perigosamente em riste, qual espadas, berrando seu repúdio, o grilo prosseguiu:

— Vocês mataram a segunda pessoa do plural! Nem na linguagem escrita, nem na linguagem falada, lemos ou ouvimos aquela beleza gótica de construção esmerada, cheia de nobreza e exortação. Hoje, o vós está limitado aos recitativos religiosos. O vulgar você e o íntimo tu fizeram fenecer um tratamento que atribuía respeito e consideração. O senhor, termo antes empregado como um relacionamento cerimonioso, está abastardado, muitas vezes até servindo para profligações (“broncas”, como dizem vocês). Muitas vezes, oculto na vegetação, ouvi acirradas discussões onde havia o uso e abuso da palavra: o “senhor” é um isso ou aquiIo; a “senhora” está me desobedecendo; o “senhor” está demitido etc etc. Como é que pode?

Senhor grilo profligador, respondi, não só pode como deve. Na bronca de um auê, de um bate-boca, de um arranca-rabo, chamar o adversário de “senhor” é impor a necessária distância. Visivelmente irritado, o grilo rechaçou:

— Verbero vossa mísera retórica. Vós causais profundos malefícios ao vernáculo com este linguajar de beira de cais, e saibais que não estou querendo ofender a laboriosa classe dos estivadores.

E o inseto prosseguiu:

— Reafirmo que a nobilíssima segunda pessoa do plural jaz sepulta por abandono. E não somente ela! Vossa preguiçosa pena transformou os dicionários em vastos cemitérios de palavras mortas. Exterminastes palavras de grande beleza por aposentadoria compulsória; sois o coveiro de particípios passados que hoje poderiam estar vivos: ganhado e enxugado são bons exemplos, e advirto-vos que pegado já começa a perecer por inexorável reumatismo, colocado em humilhante desuso, já quase completamente substituído por um abominável pego.

E o grilo continuou:

— Gosto de ler o mestre João Antero de Carvalho em suas dominicais crônicas futebolísticas na imprensa carioca, pois ele sabe cultivar, qual competente jardineiro da Última Flor do Lácio, uma linguagem de inexcedível encanto vernacular: fluente, defluir, transato, obtemperar, prefalado, além de outras jóias valiosas da língua portuguesa. Li, certa vez, com profundo deleite, o Antero referir-se a aniversário como data genetlíaca. Uma formosura!...

Aí, resolvi cortar os devaneios daquele incrível grilo falante:

Senhor grilo: vê se fica bem, numa festa de aniversário, a moçada em torno da mesa do bolo, batendo palmas e cantando: “Parabéns pra você, nesta data genetlíaca”...

Pousado sobre a mesa, o grilo ignorou minha provocação e deu a bronca final:

— Nesta famigerada fase de transição do idioma vernáculo, eu, grilo, tenho sofrido horrores. Meu nome tem servido para referir coisas negativas: barulhos de velhas ou mal ajustadas peças de automóveis são “grilos”; sujeito que toma terras de outrem, usando documentos falsos é “grileiro”, e a terra chamada de “grilo”. E tem mais: pessoa que sofre de instabilidade emocional, ou insanidade mental, está “grilada” e — como diz essa tal linguagem vulgar que vai por aí — "tá com a cuca cheia de grilos".

E lá se foi meu amiguinho grilo correndo procurar um analista...

("Jornal de Letras" - maio 1977)

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Tela de Jules Lenepveu retratando o sacrifício da heroína francesa Joana D'Arc, queimada em 30 de maio de 1431.

"JOANA D'ARC DE SOROCABA"

O Brasil já tem a sua Joana D’Arc? Talvez! Ela seria Maria Aurora de Oliveira Zoppa, da cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, que bateu às portas da Justiça Trabalhista obtendo vitória em curioso processo. Lutou ela contra as alegações da Companhia de Fiação e Tecelagem Santa Maria que a impedia de dirigir homens, sob a afirmação categórica de que “não cometeria tamanha infantilidade em colocar uma mulher na chefia de um grupo de homens mais experientes, mais idosos, pois são bem conhecidos os problemas de ordem física a que está sujeita”, acrescentando: “A reclamante nunca demonstrou qualquer vocação para transformar-se em uma Joana D'Arc sorocabana”.

Raios, diante de argumentação tão desastrosa, a Juíza Maria Alexandra Kowalski Motta, da 2ª Junta do Trabalho daquela cidade, além de decidir em favor da reclamante, também enviou representação à Procuradoria da República solicitando que a empresa seja enquadrada criminalmente por discriminação sexual, apontando flagrante violação do princípio estabelecido no § 1º do Artigo 153, da Constituição Federal, e no Artigo 5° da CLT, que reza: “A todo trabalho de igual valor corresponderá salário igual, sem distinção de sexo”.

À margem do processo, vale perguntar: os homens experientes e idosos que a empresa recusou submeter à chefia de Maria Aurora foram consultados? Creio que não. Sendo eles tarimbados e veteranos, possuidores de apreciável sabedoria de vida, não se recusariam a ter como chefe companheira de serviço a lhes ditar ordens com um certo toque feminino, privativo das mulheres; exceção feita ao pessoal da “coluna-do-meio”, que faz grotesca força, mas não consegue adquirir o referido toque, gentilmente concedido por Deus somente às filhas de Eva...

Estranha, também, a argumentação da empresa tecendo analogia entre Maria Aurora e Santa Joana D'Arc, pois aquela, desde 1965 ocupante do cargo de mestre (embora estivesse registrada como encarregada de preparação e tecelagem), apenas pedia equiparação salarial ao cargo de chefia que efetivamente exercia. Ora, a operária jamais desejou salvar a França nem correr riscos que a fizessem cair nas mãos de Pierre Cauchon, arcebispo de Beauvais, para ser encarcerada em meio “ao pão da dor e à água da agonia”, e, cinco meses depois, queimada publicamente em fogueira ardente, como aconteceu com a maior heroína de França, incendiada na Praça do Mercado Velho, em Rouen.

Maria Aurora, anônima sorocabana, apenas reclamou os trocados que vinham sendo surripiados de seu salário, reclamação que, provavelmente, teve o silencioso apoio dos homens empregados na tecelagem (é notório o cavalheirismo dos varões sorocabanos), solidariedade esta que pode ser comparada a dos entusiasmados soldados daquele pequeno exército francês que se puseram sob o comando da humilde aldeã de Domremy para obter heróica vitória na batalha de Orleans; página gloriosa da história francesa!

No sopro cívico que varreu terras de França, não houve lugar para discriminações sexuais, ao contrário do episódio de Sorocaba onde um empregador quis fazer da tecelã Maria Aurora uma subcriatura de Deus, sujeita a mil e um tormentos físicos, incapaz de chefiar grupo de companheiros de trabalho.

O departamento jurídico da empresa alegara que ela não cometeria tamanha infantilidade em colocar uma mulher na chefia; por sua vez, o gerente da mesma empresa disse achar infantilidade a representação à Procuradoria da República. Tal repetição do substantivo (infantilidade) pode conduzir à desconfiança que a direção da tecelagem, além do preconceito contra as mulheres o tem também contra as crianças, o que pode acarretar sérios castigos por parte de Cosme, Damião e Doum, Santos Meninos já um tanto aborrecidos por verem sua companheira de santidade, Joana D’Arc, envolvida na terrena história.

(Jornal da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio – setembro 1980)

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NOS TEMPOS EM QUE OS REFEREES APITAVAM OFFSIDES

A língua portuguesa é rica ou pobre de vocábulos? Estará o vernáculo perdendo força de expressão?

Já fizera esta pergunta em artigo publicado no jornal “O Dia”, do Rio de Janeiro, 31-12-72, ao anotar a praga de termos estrangeiros que infestam o idioma pátrio. O chamado “economês” tem sido um dos meios de proliferação dos indesejáveis parasitas, pois os economistas usam e abusam de palavras que podem ser perfeitamente traduzíveis. Publicações elaboradas pelos modismos desses profissionais estão cheias de marketing, trading, know-how, design etc. Palavras que têm seus equivalentes na língua portuguesa; mas, muitos teimam em usá-las. E não é só o “economês” que se apresenta contaminado; publicações outras, também andam cheias de tolas pretensiosidades.

Felizmente o futebol deu o grande exemplo. Apesar das suas origens britânicas, ele se livrou dos termos nascidos nos campos de Oxford, Cambridge, Etton e, aportuguesado, deu ao Brasil conhecidas glórias. Crack passou a craque e subiu à categoria de cobra; o corner ganhou maior importância e iminência de perigo de gol quando foi transformado no perigoso tiro de canto; center-half, foward, goal-keeper, back ficaram dando shoots no passado e já não se adentram nos nossos estádios. Por sua vez, o referee também ficou apitando esquecidos matchs.

O penalty foi abolido e substituído pelo pênalti, que vai sendo transformado em penalidade máxima, termo que exprime mais adequadamente a magnitude do fato.

Uns raros comentaristas, locutores e colunistas esportivos ainda vivem no passado e vendo o gramado cor de green e os teams disputando football-association confundem a neblina cabocla com o fog londrino, e dizem que o “hands foi punido a duas jardas da grande área”, incorrendo em duplo desprezo: à nossa língua e ao sistema métrico decimal. A torcida que não sabe (nem quer saber) quanto mede uma jarda, fica ignorando o sentido da distância.

Determinado locutor esportivo, ao narrar lance de perigo à porta do gol, disse que a bola subira “a uns quatro pés de altura”, o que levou um ouvinte a perguntar se um pé de altura era igual à altura de um pé de árvore...

Diria eu que sim, e que o tal pé de árvore deveria ser plantado numa jarra e enviado para o garden dos que ainda se amarram nas unidades fundamentais do sistema inglês de medidas, ou para o living-room daqueles que redigem com os cotovelos montados sobre dicionários ingleses.

“Precisamos de um designer para trabalhar em regime full time. Queremos um gerente de marketing e um agente free lancer”.

Estes são exemplos de anúncios que pululam nos classificados dos jornais, forma curiosa de pedir um desenhista ou projetista para trabalhar em tempo integral, ou gerente de mercado, ou profissional autônomo. Será que estamos à beira do Tamisa, à sombra da Torre de Londres ou sob as luzes da Broadway...

("Jornal de Letras" - outubro 1975)

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O garoto Fábio (7 anos), possuidor de centenas de miniaturas de soldados e índios, resolveu brincar de “Forte Apache”; daí, chamou um camarada para chefiar o bando de peles-vermelhas, depois de assumir o comando de numeroso contingente de soldados “caras-pálidas”. Militares e índios foram distribuídos em posições estratégicas; uma bolinha de gude passou à categoria de projétil de Winchester 73 e, antes de começar a batalha, foram determinadas as regras do jogo:

Combatente derrubado seria considerado morto e removido para o “cemitério” (uma caixa de sapatos, vazia). Para a missão de “coveiro”, foi convocado o Totonho (irmão menor do Fábio), logo considerado como “representante da Cruz Vermelha”. Para as funções de observador (e árbitro) foi gentilmente convidado o avô dos pirralhos.

Tudo pronto, começou a batalha. Aos primeiros tiros verificou-se que o cara representante dos índios tinha pontaria certeira; com apenas um disparo derrubava quatro, cinco, seis soldados. Com cavalo e tudo.

Decorridos uns 10 minutos de luta, a área da cobertura daquele edifício na Rua São Salvador (Flamengo), lembrava o descampado de Little Big Horn, onde os índios deram cabo das tropas do general Custer e escalparam seu discutido comandante (dizem que ele era um facínora). As tropas do “general” Fábio estavam sendo implacavelmente massacradas pela veloz bola de gude. O Totonho não tinha descanso: perninhas trôpegas, recolhia os mortos, principalmente entre os soldados. O Fábio, sentindo o amargoso paladar do irremediável revés, contou seus últimos combatentes: um corneteiro, um soldado batedor e dois cavalarianos. Olhou o campo adversário, ainda com dezenas de guerreiros, e determinou a primeira “virada de mesa”:

— Vamos dar uma paradinha e fazer uma pequena modificação. Meus soldados derrubados vão voltar...

O cara que defendia os altos interesses dos índios protestou:

— Essa não!... Os mortos não voltam jamais!...

O Fábio respondeu:

— Droga, acontece que meus soldados não estavam mortos; apenas tinham sido levemente feridos e já estão curados pelos médicos militares.

O camarada dos índios procurou a intervenção do observador, mas viu que ele dera no pé. “O árbitro” sentira que a mesa tinha sido virada, iria virar outras vezes e, absolutamente, não queria compactuar com tanta viração (apesar de disfarçadas torcidinhas a favor do neto).

(Faço uma pausa à margem da crônica, para revelar: o avô dos garotos era um famoso juiz de Direito, titular, na época, da 8ª Vara Criminal, um precursor na aplicação da pena alternativa, admirado por todos, pelo seu acentuado humanismo: Eliézer Rosa). Voltemos ao Forte Apache:

O representante dos índios acabou aceitando a tal “pequena modificação”, pois, de certa forma, iria também beneficiá-lo: voltariam muitos soldados, mas retornariam aqueles poucos índios que haviam sido derrubados. Completo engano. O garoto cortou, rapidamente, as justas pretensões do adversário, advertindo:

— Droga! Só meus soldados podem voltar. Teus índios não têm médicos militares para curar os feridos...

A luta recomeçou furiosa, dessa vez com os soldados em vantagem numérica. Mas, pouco a pouco, os índios, enraivecidos, em melhores posições estratégicas, iam dizimando os inimigos, com tiros precisos e de efeitos devastadores. Do campo índio vinha o aviso (preventivo de outras “viradas”):

— Dessa vez eles não voltarão! Estão completamente mortos.

O Totonho, consternadíssimo com o “massacre”, cumpria incansavelmente sua misericordiosa missão de “coveiro”. Decorridos mais 5 minutos de combate, só restavam três soldados a cavalo e um atirador a pé, contra duas dezenas de índios montados em velozes mustangues, uns dez flecheiros de grande competência, quatro caciques bem ornamentados e cinco pajés altamente mandingueiros.

A situação para o Fábio estava ruim, e pior ficou quando a bola de gude, em trajetória enviezada, pegou de uma só vez os três cavaleiros, derrubando-os espetacularmente. Só restava o atirador a pé...

O Totonho já estava colocado para remover o “cadáver” do último “cara-pálida”, quando o Fábio interrompeu o avanço da bola de gude que vinha certeira para derrubar o atirador, e berrou:

— O combate está interrompido. Temos que fazer outra pequena modificação...

Aí, o camarada dos índios pressentindo nova “virada de mesa”, ameaçou:

— Ó rapaz, não vai haver modificação nenhuma. Teus soldados estão mortinhos e enterradões. O combate tem que acabar honestamente.

Aí o Fábio pediu um aparte e, mansamente, declarou:

— Os mortos não voltarão. Dessa vez a pequena modificação é a seguinte: agora, nós vamos trocar de lado...

(“O Dia” – 5-11-1972)

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Cadê o ângulo?

Naquele anoitecer de 25 de maio de 1949, os players ingleses que integravam o melhor time de futebol do mundo tomaram o tradicional chá, entoaram, solenemente, o God Save The King (em outra linguagem: deram um saravá legal pro seu Orixá, o Rei Jorge VI) e, orgulhosos, se mandaram pra São Januário. À noite, os britânicos do Arsenal de Londres iam enfrentar o Vasco da Gama.

Os súditos de Jorge VI já haviam jogado três vezes contra times brasileiros. Na estréia, arrasaram o aristocrático Fluminense por 5x1; depois, empataram com o Palmeiras, 1x1 e caqueraram o Corinthians em 2x0. Os britânicos estavam invictos...

Nos idos de 1949, os ingleses eram consagrados os "Reis do Futebol", e o Arsenal, o melhor time da Inglaterra. Pouco antes, andou pelo Brasil, perdendo e ganhando, o Southampton, então time da 2ª divisão inglesa. Mas o Arsenal não era o Southampton...

Para salvar o prestígio do futebol brasileiro, havia o Vasco da Gama, considerado o melhor time da América do Sul. Naquela época, o Vascão foi um dos maiores trunfos do Ministério da Relações Exteriores de Portugal; o grito de guerra da torcida vascaína, o "casaca, casaca, casaca, a turma é mesmo boa, é mesmo da fuzarca!", liderava as paradas de sucesso; enquanto a marchinha "O Boteco do José" (É só dizer que é vascaíno e que é amigo do Lelé) era um brado de alegria e de vitória!

O Rio de Janeiro parou por causa do jogo. O Estádio de São Januário ia viver a mais gloriosa noite da sua história. No Brasil, todo mundo de ouvido grudado no rádio. O Vasco, apelidado de "Expresso da Vitória", ganhou outro slogan, o de "Vingador" (artes da imprensa para provocar o brio da tripulação do Almirante).

Dois dias antes do jogo todas as cadeiras do estádio vascaíno estavam vendidas, e o recorde de renda no continente ameaçado de queda. E caiu! Cr$ 1.146.550,00 foram agasalhados nas bilheterias. Uma quantia que dava para comprar uma frota de iates de alto luxo!...

Além da importância do jogo, falavam na estréia, no Vasco, do famosíssimo Heleno de Freitas. Não tinha conversa: aquela peleja seria histórica. E foi.

Tom Withaker, o manager do Arsenal, deu as últimas instruções aos seus comandados e mandou que eles ganhassem aquela batalha. E lá estavam Swindin, goal-keeper; Barnes e Smith, backs; Macaulay, Daniel e Forbes, halfs; Mac Phearson, Logie, Rock, Lishman e Vallance, fowards. Meninos, essa gente havia derrubado a Luftwaffe (a aviação de guerra alemã), derrotado o III Reich e também jogava uma bola redondíssima.

A nau vascaína era guarnecida por "mestres de navegação à bola", tais como: Barbosa, Augusto e Sampaio; Eli do Amparo, Danilo e Jorge (o sóbrio e eficiente Jorge!); na alça de mira dos canhões do navio do Almirante estavam os artilheiros Nestor, Maneca, Ademir, Ipojucan e Tuta. O comandante desse poderoso ataque, Ademir, era chamado "o homem-foguete", o que não impressionava os britânicos, pois eles haviam enfrentado as terríveis bombas voadoras V-1 e V-2 de Hitler.

Meu povo, quando o apito inicial foi soprado, o Vascão mandou pras cabeceiras. E olha o Arsenal encurralado! Swindin fazia milagres para evitar a queda do arco dos canhoneiros e, falemos a verdade, os britânicos suportavam a ofensiva vascaína, digna e fleumaticamente. 0x0 no primeiro, partiram para o segundo tempo.

Aí, o Arsenal cresceu, encalhou o Vasco na defesa e pintava mais uma vitória britânica. Mais um naufrágio brasileiro. Porém, a nau do Almirante, rebocada pela torcida, safou-se do banco de areia e partiu pra luta em alto-mar. 30 minutos do 2º tempo e o bombardeio em cima de Swindin era terrível...

Heleno entrou no lugar de Ipojucan (Ipojucan sempre foi pelas calmarias...) e Mario substituiu Tuta. Heleno enfunou as velas, botou pra frente, mas cadê o gol? Mario dava shows, driblava as balizas do arqueiro inglês e até o espírito da Rainha Vitória, mas o placar continuava em branco. Os gritos de gol morriam nas gargantas brasileiras e lusitanas pela inabilidade do ponteiro direito Nestor. O atacante perdia gols na cara de Swindin.

Atenção! 33 minutos do 2º tempo! A bola veio cruzada da esquerda, passou pelo nariz do goleiro e, caprichosamente, caiu nos pés de Nestor. Dali? Em cima da linha de fundo? Sem ângulo? Zero grau? Dali mesmo, Nestor, sem as chamadas possibilidades geométricas, chutou, e ante o espanto de Mr. Withaker, dos rapazes do Arsenal, dos repórteres dos famosos jornais ingleses e do pessoal da BBC de Londres, a bola estufou o barbante de Swindin. Vasco 1x0!

Foi o maior foguetório jamais explodido anteriormente nos céus de São Januário. E o maior grito de gol ouvido no estádio do Clube da Colina. Tremenda loucura dentro do campo e em todo o Brasil. E Nestor? Bem, Nestor caiu durinho. O nosso Nestor desmaiou...

Os ingleses, britanicamente pasmados, balbuciavam: "Mas não havia ângulo! Não é possível! Geometricamente, não vale!" Valeu e permaneceu: Vasco 1x0. Assim acabou a invencibilidade do Arsenal de Londres em campos brasileiros. Bichão para cada jogador pela vitória brasileira-vascaína-lusitana. Cr$ 2.500,00. Um senhor bicho para uma noite inesquecível.

("A Notícia" - outubro 1971)

Veja mais detalhes desse histórico jogo (com fotos e a reprodução da caricatura que ilustra esta crônica) em http://www.netvasco.com.br/news/noticias15/65878.shtml

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A marchinha "O Boteco do José", referida na crônica acima, foi um dos grandes sucessos do carnaval de 1946. Composta por Wilson Batista e Augusto Garcez, gravada por Linda Batista, enaltecia o Vasco pela espetacular conquista do Campeonato Carioca de 1945 e consagrava o meia-direita Lelé, ao qual se juntavam os infernais atacantes Santo Cristo, Isaías, Djalma e Chico. O lusitano José, dono do boteco, a cada vitória vascaína - e eram muitas - promovia ruidosos festejos no estabelecimento, com muito foguetório, bebida (champanhada) e comida à vontade. Tudo de graça, em louvor ao Vascão da Gama...

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Os sumos sacerdotes do "deus mercado"

Em 1725, um professor de Retórica da Universidade de Nápoles, Giambattista Vico, escreveu o livro "Princípios de uma Nova Ciência", no qual apontava três estágios no gradual desenvolvimento da humanidade:

- O "Tempo dos Deuses", marcado pelo fanatismo religioso, quando tudo ficava subjugado à vontade de divindades. Séculos de idolatria, superstições e presságios sob o poder teocrático dos sumos sacerdotes.

- A "Época dos Heróis", fase do surgimento de destemidos guerreiros, lendários ou não, exemplificados por Ulisses, Perseu, Hércules, Júlio César, William Wallace, Robin Hood, El Cid e tantos mais.

- A "Era dos Homens", o progressivo advento dos direitos humanos; o cultivo da democracia; o enfraquecimento do feudalismo e dos poderes absolutos das monarquias; a repulsa à servidão; a aurora dos anseios de liberdade, igualdade e fraternidade.

Estes estágios (ou fases ou estados) levaram Auguste Comte, cerca de cem anos depois de Vico, a construir sua conhecida "Lei dos Três Estados: Teológico, Metafísico e Positivista". A obra de Vico também impressionou outros notáveis pensadores, entre eles Ugo Foscolo, Alessandro Manzoni, Hegel, Francesco De Sanctis, Theodor Mommsen, Marx, Benedetto Croce, Oswald Spengler, James Joyce e Arnold Toynbee.

Conseqüência de sua aguçada percepção, Vico fez um vaticínio: a "Era dos Homens" chegaria ao fim e a humanidade retrocederia ao "Tempo dos Deuses", num inexorável movimento cíclico, que não se consegue compreender nem deter.

A nova toda-poderosa divindade

Hoje, a humanidade está submetida ao "deus mercado", fervorosamente consagrado por prepotentes sumos sacerdotes. A liturgia da nova divindade apropriou-se da economia, para horror do espírito de Antoine de Montchrestien, que em 1615 escreveu o livro "Traité d'economie politique", obra consagrada como a base da ciência econômica; também para desgosto de Charles Gide, professor de economia política (de 1898 a 1920) na Universidade de Paris, que definiu a economia como "a relação entre todos os integrantes de uma sociedade, na medida em que essas relações tendem à satisfação de suas necessidades materiais".

Adam Smith em "A riqueza das nações" (1776) deixou claro que a economia política teria, sempre, de proporcionar ao povo meios para obter sua digna subsistência.

Maynard Keynes, arejado economista inglês, fino literato, filósofo humanista, patrono das artes, morreu de ataque cardíaco, aos 63 anos, dias depois de grave discussão com aqueles que no FMI, em 1946, impuseram os rumos da instituição em favor da mercantilice...

No devocionário dos sumos sacerdotes do "deus mercado" não há espaço para esta prece de João Paulo II: "A economia só será viável se for humana, para o homem e pelo homem".

Os adoradores da divindade chegam ao ridículo de atribuir-lhe tangibilidade, e costumam dizer que o mercado está "nervoso, irado" ou "calmo, sereno". Uma cretinice digna de ser satirizada por Ovídio, o poeta romano que escrevia sobre os humores dos deuses do Olimpo.

Entre os dogmas do detestável "deus mercado" está a devoção aos números, aos índices e percentuais. Prestem atenção à insuportável enxurrada de estatísticas que enchem enormes espaços nos noticiários. Um comportamento que o renomado sociólogo Pitirim Sorokin, em meados do século 20, já apelidava, ironicamente, de "quantofrenia". Os índices das bolsas de valores, as cotações das moedas, as apelidadas "finanças comportamentais" (sic), os lucros ou prejuízos das grandes empresas e até um tal "risco Brasil" são enfadonhos para a quase totalidade da população, mas fazem o delírio dos "quantofrênicos".

Os sumos sacerdotes chegam a uma espécie de orgasmo de ninfomaníaca, quando anunciam ou comentam os lucros dos grandes bancos...

Deplorável insensibilidade

No Brasil, o "Tempo dos Deuses" estarrece pela insensibilidade dos pregoeiros da "excelente situação" da nossa economia. O próprio presidente da República, em tautológicas, metafóricas e acacianas manifestações, habituou-se a proclamar: "O Brasil vive um momento mágico na sua economia". Afirmação pavorosamente sobrenatural. Que magia é esta ?

As aparições do presidente na televisão, com sua descontrolada verbosidade e ágil mobilidade corporal, contrastam com imagens dos noticiários que exibem a miséria dos nossos bairros pobres, complexos de favelas, casebres, mocambos, barracos, refúgios feitos de latas, papelões, madeiras apodrecidas, restos de plásticos, alvenarias mal arranjadas, tudo cercado de valas infectas, além da presença das nossas populações de rua, escombros humanos difíceis de serem reconstruídos, e das gentes andrajosas e famintas catando restos nos lixões, em meio às revoadas de urubus ávidos de carniça.

Imagens de pobreza e/ou indigência comprovadas pelos índices de desenvolvimento humano, constantemente divulgados por instituições internacionais, que deprimem nossos sentimentos cívicos, mas não abalam a soberba dos sumos sacerdotes fanatizados pelo canalha do "deus mercado".

"Momento mágico", repete o presidente da República, cego às nossas crianças que esmolam nos sinais de trânsito; desconhecedor da enorme legião de brasileiros desempregados que panfletam propaganda nas vias públicas; indiferente à multidão de camelôs nas calçadas; alheio à disseminação do odioso trabalho escravo.

Ignorando a criminalidade que assola toda a população brasileira, o presidente também usa e abusa do adjetivo "extraordinário" para qualificar o momento econômico, sem se dar conta que a violência tem origem, principalmente, na desigualdade social. Uma anomalia que sempre afligiu o Brasil, e continuará afligindo, haja vista a elevação da concentração de renda (comprovada por índices oficiais), conseqüência nefasta dos malefícios exalados pelo "deus mercado".

Desmantelamento da educação e deformação da saúde

Agindo, nas últimas décadas, com extrema pertinácia, os sumos sacerdotes conseguiram desmantelar a educação pública, fazendo-a cair no descrédito. Por sua vez, a saúde foi submetida ao mesmo vil processo, o que resultou na amarga situação de muitas dezenas de milhões de brasileiros que não têm direito a um "convênio". Ter "plano de saúde", que deveria ser uma opção, passou a ser uma imposição. Todos sabemos a via dolorosa nos hospitais e postos de atendimento, no âmbito dos serviços públicos.

A desenfreada mercantilização da saúde é aberrante: as empresas gastam rios de dinheiro com publicidade, intensa intermediação e escandalosos patrocínios que se configuram nos apoios a clubes esportivos, pagamentos de altos salários a jogadores de futebol e outras graves deformações. Em contraponto estão os parcos pagamentos aos profissionais da saúde e as demandas judiciais com os conveniados. Tudo muito a gosto do "deus mercado"...

Ricardo Boechat, jornalista e radialista, também apresentador de noticiários na televisão, tem defendido uma idéia bastante inteligente: no Brasil, todos os governantes, e seus parentes próximos, deveriam ser obrigados a depender - unicamente - dos serviços de saúde e educação públicas. Idéia preciosíssima que, se posta em prática, traria o resgate dos direitos assegurados nos artigos 196 a 200 e 205 a 214 da Constituição.

Aviltamento da previdência pública

Em abril/2008 o Senado Federal aprovou o projeto do senador Paulo Paim que vincula o percentual de aumento do salário mínimo aos benefícios dos aposentados e pensionistas. Foi o bastante para enfurecer os sumos sacerdotes. Noticiários de rádio e televisão, editoriais e matérias na imprensa, aligeirados em defender os interesses da previdência privada, acusaram o Senado de "provocar um rombo nas contas do INSS". O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, fez coro com os serviçais do "todo-poderoso" ao acusar os senadores de "irresponsáveis". Grosseiro insulto a figuras do nosso Senado.

Uma indignidade contra Pedro Simon, este, que é um esplêndido exemplo de humanismo e correção moral, a dignificar o Congresso Nacional e nos dar esperança na decência do gênero humano.

Uma estúpida agressão a Cristovam Buarque, nosso heróico cavaleiro andante obstinado na sua guerra santa pela Educação.

Um gesto alucinado contra Paulo Paim, autêntico paladino dos valores consubstanciados na "Era dos Homens".

Não vacilou, o ministro Paulo Bernardo, em atingir todos os senadores que buscam deter a progressiva miséria que vai humilhando os segurados do INSS.

Mas, o ministro sofreu o justo repúdio de quem não se ajoelha e lambe as mãos do "deus mercado". Repúdio no qual tem se destacado o senador Mão Santa, dono de um discurso descontraído, coloquial, bem-humorado, tudo entremeado do aviso "atentai bem!", marca da sua oratória. Uma eloqüência que, apesar de alguns ímpetos provocadores de polêmicas, seria aprovada por Giambattista Vico, se o político piauiense tivesse sido seu aluno na Universidade de Nápoles.

Todavia os sumos sacerdotes já conspiram, na Câmara Federal, para barrar o projeto aprovado no Senado. Em nome do "momento mágico" da economia do país, o PT e seus aliados lutarão contra aposentados e pensionistas, num revoltante exemplo de traição ao ingênuo eleitorado, eis que todos os petistas - sem exceção - fizeram em suas campanhas eleitorais solenes promessas de apoio aos segurados do INSS. E aqui vale lembrar o pensamento de Rui Barbosa:

"O essencial não é estar na profissão do credo, mas na prática das obras".

A resistência

No jornalismo desde 1967, optei pela oposição à nova divindade. Na Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio, onde ao longo de 23 anos fui editor do órgão de comunicação da entidade, e onde tive inteira liberdade de expressão, elaborei centenas de matérias e artigos, que assinei, em defesa dos direitos sociais, uma luta que se insere no histórico da CNTC.

Ainda no jornalismo sindical, a batalha continua no Sindicovi-Rio, com gratificante repercussão em variados veículos de divulgação. Destaco entre estes, o "Monitor Mercantil", influente jornal especializado em assuntos econômicos, fundado em 1912, que na edição de 28-12-2006 estampou a íntegra do meu artigo "Aviltamento da previdência pública". Fato que, pelo seu elevado significado, conforta e anima os resistentes à avassaladora força do "deus mercado" e seus execráveis sumos sacerdotes.

Maio/2008

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A morte súbita do neoliberalismo

A partir do Consenso de Washington, realizado ao início dos anos 90, o chamado neoliberalismo foi imposto ao mundo, em meio à endeusada globalização. A então onipotente Margareth Thatcher, a "Dama de Ferro", tornou-se comandante-em-chefe do movimento que proclamava o Estado mínimo, revivendo vários liberais dos séculos 18 e 19, entre eles Jeremy Bentham, Henry David Thoreau e Stuart Mill, que tiveram suas obras ardilosamente manipuladas, com a exaltação do utilitarismo. O objetivo da manipulação era reduzir o poder estatal, limitando-o à manutenção da soberania nacional e da ordem pública interna, à garantia do cumprimento dos contratos e à proteção dos direitos individuais de propriedade.

O neoliberalismo tornou-se regra-de-fé do deus mercado, sacralizada pelos seus sumos sacerdotes. Até setembro de 2008, propalava-se que o mundo vivia "uma fase de segura prosperidade econômica, direcionada a proporcionar cada vez mais felicidade a um número maior de pessoas". Era a consubstanciação do tal "momento mágico", tão endeusado pelo presidente Lula em suas agitadas falas diárias.

Também especialistas em finanças internacionais, exalando sapiência, aplaudiam a "inteligente política habitacional, através de ferramentas que garantiam a musculatura da economia norte-americana". Tudo falso!

Repentinamente o neoliberalismo morreu e uma crise financeira apareceu de forma horrenda. O Estado, que se desejava mínimo, foi chamado a socorrer empresas, tapar rombos abertos por especuladores, acalmar investidores e evitar megadesastres econômicos.

Mas, o súbito fim do neoliberalismo não significa a morte do deus mercado. Essa peste continua vivíssima, através da permanente doutrinação dos seus sumos sacerdotes. A crise atingirá, com maior contundência, o povo miúdo, os mais desvalidos. Prova é a posição das altas autoridades financeiras, que falam em bilhões, trilhões, sejam dólares, euros ou reais, para salvar poderosas instituições.

Como exemplo, vale apontar a atitude da senadora Ideli Salvatti que já se apressou em usar a crise econômica para justificar sua odiosa posição contra um aumento decente dos proventos de aposentados e pensionistas do INSS e a extinção do injusto "fator previdenciário", que tanto prejudica os trabalhadores brasileiros. A parlamentar petista tem se revelado uma furiosa alta sacerdotisa do deus mercado. Tomara que as divindades do bem tenham piedade dela e daqueles que se batem por generosa ajuda estatal a instituições privadas, mas são insensíveis às condições que fazem o Brasil ser o deplorável campeão mundial da desigualdade social.

Gente que ignora aquela menina de 7 anos, moradora numa pequena cidade de Pernambuco; ela, entrevistada por uma repórter de televisão, disse que quando não tem comida, come barro. E ante o comovido espanto da jornalista, acrescentou: "Sim, moça, barro alimenta"...

Novembro/2008.

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João Havelange - "o grande orixá branco"

Nas primeiras décadas do século passado, o futebol ficou restrito a países europeus e sul-americanos; apenas em 1934, na Copa do Mundo na Itália, é que surgiu a seleção do Egito, logo eliminada no seu primeiro jogo, com a Hungria, por 4 x 2. Na Copa da França, 1938, o time das Índias Holandesas (atual Indonésia) foi batido, também pela Hungria, por 6 x 0.

Em 1954 coube mais uma vez aos húngaros derrotar outra seleção não pertencente ao âmbito europeu ou sul-americano: a Coréia do Sul foi impiedosamente batida por 9 x 0. No jogo seguinte os asiáticos perderam para a Turquia, 7 x 0.

Todavia, em 1966, na Copa da Inglaterra, outro país da Ásia, a Coréia do Norte, teve melhor desempenho e conseguiu chegar às quartas de final após empatar com o Chile, 1 x 1, e vencer a Itália, 1 x 0. No "mata-mata", os velozes norte-coreanos perderam para Portugal, mas foram a grande e boa surpresa da Copa.

Até então, apenas um jogador não europeu ou sul-americano havia alcançado prestígio mundial, o hábil meia de ligação Ben Barek, um marroquino nascido em 1917, que atuou nas seleções do seu país, da França e Espanha. Em 1966, Portugal conquistou o 3º lugar com uma seleção na qual brilhavam os moçambicanos Coluna e Eusébio.

Na Copa do México, em 1970, o Marrocos obteve apenas um empate, sofreu duas derrotas e foi desclassificado. Em 1974, a seleção do Zaire foi derrotada pela Escócia, 2 x 0; Iugoslávia, 9 x 0, e Brasil, 3 x 0.

Mas, após João Havelange assumir a presidência da FIFA em 1974, africanos e asiáticos passaram a impor respeito. Em 1978, na Copa da Argentina, a Tunísia não decepcionou, pois derrotou o México, 3 x 1, perdeu para a Polônia, 1 x 0 e empatou com a poderosa Alemanha Ocidental, 0 x 0.

A Copa de 1982, na Espanha, assinalou a consolidação da África negra (a parte continental ao sul do Trópico de Câncer), quando a seleção de Camarões, onde se destacava Roger Milla, empatou com o Peru, 0 x0; Polônia, 0 x 0, e Itália, 1 x 1. Em 1990, Camarões voltou a ser destaque ao vencer a Argentina, 1 x 0, e Romênia, 2 x 1; na fase seguinte bateu a Colômbia, 2 x 1, mas perdeu para a Inglaterra (nas quartas de final) por 3 x 2, na prorrogação. Os "Leões Africanos", como foram chamados pela mídia esportiva, tornaram-se a sensação da Copa, com o malabarismo dos dribles e a precisão do toque de bola.

A África foi à Copa de 2006 com as seleções da Costa do Marfim, Gana, Togo e Angola, mostrando o acerto de João Havelange em estender o futebol aos cinco continentes. Somente uns poucos, uns alguns, acreditavam, sem ressalvas, no pleno êxito de tão arrojado e difícil objetivo, que hoje está evidente no grande número de jogadores, principalmente da África negra, que participam de campeonatos nos mais variados países. Fato que representa benéficos efeitos - em seus múltiplos aspectos - para os povos da África Subsaariana e da África Austral, vítimas de elevados índices de pobreza, degradados por extremas carências.

A realização da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, consagrará o trabalho projetado e realizado com singular tenacidade por aquele que bem merece o título de o grande orixá branco.

Novembro/2008.

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Tributo a Celso Kelly

A descontração das bailarinas, fixada na tela de Degas, intitulada "Répétition d'un ballet sur la scéne" ("Ensaio de balé no palco") é um belo exemplo da arte dos pintores impressionistas, inconformados com os rigores do academicismo e o confinamento nos austeros limites dos ateliês. Artistas desejosos de retratar, no mesmo instante, o que viam e sentiam. Um movimento surgido na primeira metade do século19, nas paisagens marinhas, campestres e urbanas da França, assim analisado por Celso Kelly:

"O impressionismo desbravou. Em primeiro lugar, liberou a pintura dos preconceitos acadêmicos e assim lhe permitiu novas audácias. Superada a nitidez dos contornos (em que predominava o desenho), as massas e os volumes resultam das pastas de cor, e a atmosfera envolve as coisas, reduzindo-as, muitas vezes, ao momento de um flagrante".

Celso Kelly, como arguto crítico de arte, assim classifica os pintores impressionistas:

"Um analista da natureza que compreendeu, de pronto, que a paisagem ou o ambiente, povoado ou não de criaturas humanas, ia além de um amontoado de pessoas e coisas; havia planos, perspectiva, cambiantes de cor, variações de luz, movimento constante, a mais contínua mutabilidade. Impôs-se, desde logo, a captação dessa inquietação, que corresponde ao que se pode chamar de vida no cenário que nos envolve".

Os textos apresentados são transcrições do livro "Novos Caminhos" de Celso Kelly (Agir Editora - 1976), uma valiosa coletânea de ensaios que se transformam num autêntico tratado, indispensável a jornalistas, comunicadores e cultores das artes plásticas. Obra de fôlego de um humanista de elevado conceito nos meios intelectuais e artísticos do Rio e do Brasil. O admirável iluminista que foi diretor do Teatro Municipal, ativo participante da Comissão Artística, quando criou e incentivou variados e inovadores projetos, entre eles o que, inteligentemente, abriu as portas da hoje centenária casa da ópera e do balé, a artistas plásticos, dando-lhes oportunidade de reproduzir cenas dos espetáculos apresentados. A mesma oportunidade proporcionada, em Paris, a Degas, que capturou o ensaio das bailarinas, hoje imortalizadas no Museu do Louvre.

Maio/2009.

 

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Ave Maria para os favelados

A crônica seguinte tem base na matéria que escrevi há 20 anos no jornal da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e, infelizmente, o assunto venceu o tempo,  permanecendo bastante atual.    

A favelização das cidades brasileiras, com sua miséria e violência, era denunciada no princípio do século 20 pelo jornalista e escritor Luiz Edmundo que, no seu livro “O Rio de Janeiro do Meu Tempo”, mostrou as condições dos habitantes do antigo morro de Santo Antonio. Eis a transcrição:

Em Santo Antonio, outeiro pobre, apesar da situação em que se encrava na cidade, as moradas são, em grande maioria, feitas de improviso, sobras e farrapos, andrajosas e tristes como os seus moradores. Por elas vivem mendigos, os autênticos, quando não se vão instalar pelas hospedarias da rua da Misericórdia, capoeiras, malandros, vagabundos de toda sorte, mulheres sem arrimo de parentes, velhos dos que já não podem mais trabalhar, crianças, verdadeiros desprezados da sorte, esquecidos de Deus...

O cronista carioca cobrou responsabilidades por tanta degradação social e, alongou seu relato:

O morro de Santo Antonio é um verdadeiro arraial de infortúnio, chaga cruciante da miséria humana. Santo Antonio dos desgraçados! Só a vegetação é poderosa e rica, por qualquer ponto rebentando com viço e com frescor, em caules, e folhagens que dão sombra, graça e amenidade ao desmantelo ali gerado pela mão do homem.  Alcançamos, enfim, uma parte do povoado mais ou menos plana e onde se desenrola a cidadela miseranda. O chão é rugoso e áspero, o arvoredo pobre de folhas, abaixo, tapetes de tiririca ou de capim surgindo pelos caminhos mal traçados e tortos. Todo um conjunto desmantelado e torvo de habitações sem linha e sem valor.

É uma árvore plantada, aqui, outra acolá, outra mais além, em meio a um casario cor-de-ferrugem, arrebentado e decrépito. Construções, em geral, de madeira servida, tábuas imprestáveis das que se arrancam a caixotes que serviram ao transporte de banha ou bacalhau, mal fixadas, remendadas, de cores e qualidades diferentes, umas saltando aqui, outras entortando acolá, apodrecidas, estilhaçadas ou negras. Coberturas de zinco velho, raramente, ondulado, lataria que se aproveita ao vasilhame servido, feitas em folha-de-flandres. Tudo entrelaçando, toscamente, sem ordem e sem capricho.

Quando chove, a água penetra dentro da morada pelos interstícios do tapume. O chão, por isso, deve ser arranjado em declive para que não se transforme em poças. Quando faz sol, o zinco aquece, incendeia; cada barraco é um forno onde ninguém fica, porque morre. Pior é quando venta forte, uma vez que todo esse material, e molambos, desfaz-se, tomba e se dispersa pela encosta da montanha.

O morro, ao longo do tempo, foi progressivamente desmontado para servir de aterro a diversas áreas da cidade, só restando, atualmente, a parte onde está o Convento de Santo Antonio.  Mas não era somente aquele morro que mostrava a aguda miséria de uma população.  Outros disseminavam-se na paisagem do Rio, entre eles o do Castelo (cujo desmonte foi completado em 1922).  Registros históricos dos meados do século 19 apontam que em 10 de fevereiro de 1811 uma tempestade de verão assolou o Rio e fez desabar partes desse morro, soterrando muitas casas, matando dezenas de pessoas. As enxurradas, que tantas tragédias causam entre habitantes dos morros, eram lamentadas por Luiz Edmundo:

Aqui está um barraco que a última enxurrada não desfez, mas entortou. Com um pé-de-vento ainda pode cair de todo. Dentro dele há uma mulher despreocupada que canta, passando roupa a ferro. Num caixotinho, ao lado, estão dormindo, a sono solto, dois anjos cor-de-rosa, um, parecendo ter menos de dois anos e outro, uns meses, apenas.

A visão dos poetas

   Ao contrário do que é cantado em "Chão de Estrelas", hino dos seresteiros, de Orestes Barbosa, o teto de zinco jamais foi romântico. Ao invés de desenhar "estrelas que salpicavam nosso chão", os furos - na realidade - produzem torturantes goteiras. "Ave Maria no Morro", reza: "quem mora lá no morro já vive pertinho do céu". Na realidade, padecer dentro de um casebre de zinco não é ter nenhuma intimidade celestial.  Todavia, no carnaval de 1962, inconformados com a multiplicação e miséria das favelas, Luiz Antonio e Oldemar Magalhães protestavam:

Ai! barracão / Pendurado no morro / E pedindo socorro /
A cidade, a seus pés / Ai barracão / Tua voz eu escuto /
Não te esqueço um minuto / Porque sei, que tu és /
Barracão de zinco / Tradição do meu país
Barracão de zinco / Pobretão, infeliz.

A visão do bom senso

Favelas, mocambos, casebres de sapê, papelão, tábuas, lata, isopor ou palha, são consequências da insensibilidade geral. O Santo Antonio dos Desgraçados, tão lastimado por Luiz Edmundo, não alterou a indiferença dos governantes, e o resultado é a existência de milhares de bairros miseráveis, em todo o país, cujos habitantes transbordam ocupando praças, terrenos baldios, marquises, viadutos, pontes, entocados em ruínas e construções abandonadas.  Um quadro que nos é profundamente constrangedor, pois tem sido exibido nos telejornais de todos os países, embora o presidente Lula queira, com obstinação, fazer acreditar que o Brasil seja uma influente potência econômica, com todo o direito, inclusive, de fazer parte, como membro permanente, do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Nossa deplorável realidade social está provada pelos últimos Índices de Desenvolvimento Humano - da ONU, que nos colocam atrás, entre países latino-americanos, do Chile, Argentina, Uruguai, Cuba, México, Costa Rica, Venezuela e Panamá.  No quadro geral estamos num melancólico 74º lugar, o que em nada nos dignifica.

A recente tragédia ocorrida no morro do Bumba, em Niterói, tenebrosa sobre todos os aspectos, é um veemente atestado de desqualificação para a incorrigível soberba do nosso presidente.

Maio/2010.

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TIM, UM VIRA-LATA DE ALTA VOLTAGEM

Ao início do verão de 1972, escrevia eu sobre apelidos de jogadores de futebol, matéria para ser publicada no histórico vespertino "A Notícia".  Naquele dia, meus comentários eram sobre Zagalo, chamado de "Formiguinha" em decorrência do seu infatigável trabalho, ligando defesa e ataque.  Datilografava a crônica, quando uma cigarra entrou pela janela, pousou na tecla Z da máquina de escrever e protestou veementemente contra meus elogios às formigas, motivados pela conhecida fábula "A Cigarra e a Formiga".  O sonoro inseto assegurou-me que aquela historinha não passava de uma descarada mentira.  Publiquei todos os seus argumentos na crônica que intitulei "O pouso na tecla Z".

Anos depois, entendi que a cigarra tinha inteira razão, ao ler um trabalho do cientista francês Jean Henri Fabre, uma das maiores autoridades mundiais em entomologia, autor de Souvenirs entomologiques, gigantesca obra em 10 volumes publicada entre 1879 e 1909.  Fabre revela: a fábula que serve de símbolo ao trabalho previdente das formigas, em contraste à imprudência das cigarras, é uma empulhação.  Na verdade, as formigas são insaciáveis predadoras, impiedosas facínoras, enquanto as cigarras, nossas seresteiras do verão, cumprem admiravelmente seu ciclo vital, sem atormentar a vida de ninguém.

Outro meu diálogo com um inseto, publicado com o título "O grilo e a morte da segunda pessoa do plural", pode ser lido na abertura deste link, "Crônicas que vencem o tempo".

Recentemente, tive a oportunidade de conversar com mais um ser do mundo animal, dessa vez o Tim, esperto vira-lata, nascido e muito bem criado no canil da Lúcia, que abriga dezoito felizes caninos, lugar um tanto tumultuado, mas sempre abençoado por São Francisco de Assis, situado na Ilha do Governador, no Rio.

Tim chegou-se a mim ostentando no pescoço um vistoso escudo do Botafogo, exibindo sua preferência clubística, que também é de todos os cães e cadelas do afortunado canil. Prova de fidelidade àquela que os acolheu e adotou, uma fervorosa torcedora da Estrela Solitária.

Após apresentar-me sinceras condolências pela situação do América F.C. desejando que o clube de Campos Sales volte a ser grande, de acordo com a magnitude de sua tradição, o solidário e fraterno vira-lata perguntou-me:

- Por que o bicho-homem não usa a força da gravidade para gerar energia elétrica?

Espantado, demorei em catar resposta, e o energético Tim prosseguiu:

- Existem grandes relógios de parede cuja movimentação dos ponteiros é feita através de um par de pesos submetidos à força da gravidade. Já sei, você vai dizer que quando um dos pesos chega ao chão há necessidade de, manualmente, acionar o outro peso, e assim sucessivamente, o que prejudicaria o permanente fluxo da corrente elétrica.

Sem me permitir qualquer contraposição, Tim, com poderosa carga de megawatts, continuou:

- Veja bem: existem sistemas de capacitância, ou dispositivos interligados, ou relés os mais diversos e de tantas funções. A gravidade, sim, pode ser utilizada como um poderoso dínamo, transformando energia mecânica em energia elétrica.

A questão proposta pelo dinâmico Tim, um cão de intensa amperagem, merece reflexões.  O bicho-homem até tem procurado novas fontes de produção de eletricidade, entre elas a eólica, através de vistosos cataventos de concepção futurista, mas não desiste de devastar a natureza construindo hidrelétricas ou, de forma alucinada, usinas termonucleares.  Tudo me faz lembrar a figura de Michael Faraday, o genial inglês, nascido em 1791, filho de um modesto ferreiro.  Aos 14 anos, com elementar instrução escolar, tornou-se aprendiz de encadernador; mas, com vocação autodidata, buscou ampliar seus conhecimentos, até ser distinguido como o maior nome da ciência experimental no século 19.  Em 1831 foi o primeiro a construir um gerador elétrico, uma das suas impressionantes realizações, entre muitas que o consagraram como o "Mago da Eletricidade". Faraday legou à humanidade este precioso pensamento:

"Deixe a imaginação fluir, guiada pelo discernimento, mas refreando-a e dirigindo-a pela experimentação. Nos casos de maior sucesso (de investigação científica) não se realiza sequer a décima parte das sugestões, esperanças, desejos e conclusões preliminares. A natureza é nossa melhor amiga em ciência experimental, quando deixamos que suas insinuações penetrem livremente em nosso espírito. Nada é tão bom como uma experiência que, ao mesmo tempo que corrige um erro, recompensa a nossa humildade com um grande avanço no conhecimento".

Maio/2011

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