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Dos esportes realmente populares, que levam multidões aos estádios e despertam paixões, o futebol é o único que permite o uso dos pés, das mãos (conforme a posição do jogador) e da cabeça, o que impõe grande coordenação motora e rápido raciocínio. Por isso, apresenta lances sensacionais, principalmente quando certeiras cabeçadas são transformadas em gol.

 

O único jogo feito exclusivamente de cabeça impressionou Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos em dois períodos. Ele, em sua visita ao Brasil, 1913-1914, percorrendo o interior do Mato Grosso e Goiás, com o general Rondon, ficou deslumbrado com a incrível habilidade dos índios habitantes do Chapadão dos Parecis, num jogo em que era utilizada uma bola produzida a partir do látex de vegetais. Os indígenas tiravam a seiva e sopravam num canudo, obtendo grandes bolhas de ar, com cerca de 20 centímetros de diâmetro, perfeitamente esféricas.

 

Roosevelt narrou que os jogadores formavam dois times, com oito, dez ou maior número de cada lado, com a bola sendo colocada no solo para que um índio, atirando-se de barriga, num salto rasteiro, elevasse a bola com a cabeça, no lance inicial. A primeira cabeçada levantava a bola à meia altura e a partir daí ela permanecia longo tempo no ar, sendo arremessada e rebatida entre os dois grupos. A vitória acontecia quando a bola ultrapassava todo o grupo contrário, sem que pudesse ser rebatida. Os participantes gritavam de alegria, não importando quem fosse o vencedor . . .

 

O presidente norte-americano registrou que jamais tivera conhecimento de tal jogo, salientando sua absoluta inexistência em qualquer outra tribo ou povo de outros continentes. Ficou fascinado com a destreza, precisão e o vigor dos indígenas na movimentação da bola, além da grande velocidade dos lances proporcionados pelas cabeçadas e pelos musculosos pescoços dos parecis.

 

O jogo foi chamado por Roosevelt de head ball e está narrado no livro que o presidente escreveu, intitulado Trough the Brazilian Wilderness . Eis o trecho final da tradução apresentada em obra da Editora Brasiliana, São Paulo, 1944:

 

É difícil saber o que seja mais digno de admiração, se o vigor e destreza com que a bola é devolvida, quando vem alta, ou a rapidez e agilidade com que o jogador se projeta de cabeça no solo para rebater a bola que vem baixa. Não posso compreender como não esborracham o nariz. Alguns jogadores dificilmente falhavam a cabeçada para devolver a bola que chegava a seu alcance e com forte impulso ela voava numa grande curva em distância realmente de admirar.

 

O jogo era chamado pelos indígenas de mataná-ariti, como está assinalado por Roquete Pinto, em seu livro “Rondônia” (Arquivos do Museu Nacional - Rio de Janeiro, 1917) e registrado em diversas obras do folclorista Luís da Câmara Cascudo.