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Entre 30 a.C. e 14 d.C., Roma teve como soberano aquele que havia derrotado Antônio e Cleópatra, o general Caio Otávio, sobrinho-neto de Júlio César. Ele proporcionou ao Império tempos de paz e prosperidade que consolidaram o domínio romano na Europa, África do Norte e Ásia Menor. O Senado concedeu a Otávio o título de Augusto (“aquele que deve ser venerado”) e em sua honra o mês sextilus (sexto mês do calendário romano, que era de dez meses) foi rebatizado com seu nome; daí a origem de agosto.

 

Destemido guerreiro, realizador de obras grandiosas, hábil político e administrador, Augusto soube cercar-se de filósofos, artistas e literatos, entre eles os poetas Vergílio, Horácio, Propércio e, especialmente, o historiador Tito-Lívio. Com Ovídio, teve uma relação tumultuada, conflitante, devido, sobretudo, ao excesso de erotismo nas obras do poeta. No ano 8 d.C. as divergências agravaram-se e Augusto afastou Ovídio da corte, banindo-o para Tomi (na atual Romênia), o que em nada afetou o prestígio do poeta junto aos romanos, que continuaram a apreciar o autor de Ars amatoria (“Arte de amar”).

 

Nos tempos de Augusto, a língua romana alcançou a fase que os historiadores chamam de latim de ouro (sermo eruditus), depois, com a progressiva decadência de Roma, o idioma foi-se corrompendo, passando a ser de prata, de cobre, de ferro e, finalmente, de chumbo (sermo vulgaris), o latim estropiado falado pela gente inculta, do qual se originaram os idiomas dos povos atingidos pelo domínio de Roma.

 

Com o império no seu apogeu, Augusto, ainda moço, atribuiu a Tibério, seu enteado, a responsabilidade de conduzir as questões imediatas de Roma e buscou maior tranqüilidade, passando a viver na casa de campo que mandara construir em Capri, a formosa ilha do golfo de Nápoles. Ali, o imperador prestigiava as artes e as ciências, praticava exercícios físicos e promovia, com entusiasmo, o harpastum. Era a bola rolando em Capri . . .

 

Entre os freqüentadores da casa de Augusto estava o literato Lúminus da Mauritânia (descendente de berberes mahurins do Noroeste da África) e um estudioso dos costumes dos povos dominados pelos romanos, em especial os cimbros. De origem germânica, este povo já havia sido mencionado por Piteas, navegador e geógrafo grego, do século IV a.C. Conforme registrou o historiador Estrabão, os cimbros deixaram suas terras litorâneas no Mar do Norte devastadas por um gigantesco maremoto (113 anos antes de Cristo), dirigiram-se ao sul da Europa, juntaram-se aos teutões, mas foram detidos nas Gálias por Mário.

 

Os variados relatos de Lúminus impressionavam Augusto que ouvia o historiador com profunda atenção. Também conhecedor da cultura dos povos milenares do Oriente remoto, Lúminus revelou ao imperador o interessante futebol dos chineses (o tsu-chu ), levando o soberano a organizar em Capri animadas competições que premiavam aqueles mais hábeis no trato da bola com os pés. Lúminus antevia para Augusto os fundamentos que iriam caracterizar o futebol entre os romanos no século V d.C. (conforme está detalhado no final deste capítulo) e, também, sugeria que o futebol poderia servir à política de paz do soberano, por meio de disputas que servissem ao congraçamento dos povos. Uma idéia que exposta em Capri, no início da Era Cristã, somente seria tornada realidade vinte séculos depois, através da Fifa.

 

Personagem também importante na corte de Capri era Venísia de Mycenes, mulher de Lúminus, de origem grega, dona de um belo rosto, traços afilados, característicos do povo helênico. Amiga de Lívia, mulher de Augusto, Venísia era versada em Platão, Aristóteles, Sócrates e outros clássicos da filosofia grega. De Heráclito, o célebre pensador de Éfeso, a inteligente Venísia sempre repetia:

 

“É uma mesma coisa ser vivo ou ser morto; desperto ou adormecido; jovem ou velho; pois essas fases se transformam umas nas outras e são, de novo, transformadas”.

O casal morava nos arredores de Pompéia e não dependia dos favores da corte, mantendo-se através das aulas que ministrava sobre as variadas áreas do conhecimento humano. Venísia era bastante admirada por ser literata e decoradora, cabendo-lhe reproduzir, em desenhos, as peças dos museus e exposições que Augusto fundou em Capri, mostrando objetos oriundos do Egito, do Oriente e das regiões dominadas pelo Império.

 

Com a morte de Augusto e a ascensão de Tibério, no ano 14 da Era Cristã, Venísia e Lúminus, pressentindo os tempos de intrigas, conspirações e crueldades que se formariam com o novo soberano, retiraram-se para a casa em Pompéia, levando anotações, trabalhos literários e objetos que haviam juntado em Capri. Entre as obras de Venísia, incluindo desenhos feitos em papiro ou tabuinhas de cera, estavam cenas do futebol, onde a bola era venerada, como se fosse uma deusa, nos alegres espetáculos organizados por Augusto.

 

Para Suetônio (Caius Suetonius Tranquillus), historiador e arquivista imperial, cujos registros abrangem o período entre Júlio César e Domiciano (46 a.C. – 96 d.C.) o conjunto de obras do casal Lúminus e Venísia perdeu-se na erupção do Vesúvio, que nos dias 23 e 24 de agosto do ano 79 d.C. destruiu as cidades de Pompéia e Herculano. Escavações iniciadas em 1748 revelam imagens as mais variadas, edifícios, casas, móveis, utensílios, decorações, pinturas, corpos mumificados de habitantes, formando um acervo arqueológico que, em parte, está exposto no Museu Nacional de Nápoles.  Entre as peças ali expostas está o afresco que retrata uma bonita jovem, de rosto sereno, segurando um objeto, assemelhado ao buril, e quatro pequenas tábuas, justamente os instrumentos utilizados por Venísia para gravar seus trabalhos artísticos.

 

Um outro escritor latino, Apolinário Sidônio, nascido em Lyon, que viveu de 431 a 487 d.C., deixou 24 poemas e 147 cartas onde revela seu agudo interesse pelos costumes romanos, principalmente nas Gálias (França). Seu prestígio literário fez com que ele conquistasse enorme projeção, sendo escolhido prefeito de Roma, em 468. Em 471, recebeu o título de bispo de Arverna (Clermont-Ferrand), alcançando alta dignidade religiosa. Hábil no trato com os bárbaros, soube perceber a irremediável decadência do Império Romano, tornando-se testemunha do empobrecimento da língua e da cultura de Roma.

 

Naquele tempo, Roma já estava dividida entre Império do Ocidente e Império do Oriente, separação que se iniciou a partir de Teodósio I, imperador de 379 a 395 d.C.. Durante sua vida, Sidônio vivenciou a progressiva entrega de vastas regiões romanas a diversos povos bárbaros, o que causou a formação dos chamados reinos romano-germânicos.

 

Como excelente observador de costumes, Apolinário Sidônio, que depois se tornou santo, anotou detalhes do harpastum e do follis: campo retangular, linha divisória ao meio e duas metas que deveriam ser atacadas pelos adversários. A meta, denominada locus stantium, era defendida por jogadores lentos, quase parados. Os mais velozes atuavam no ataque, na área chamada pilae praetervolantis et superiectae, havendo sobre a linha divisória um participante, o medicurrens, que distribuía o jogo entre defensores e atacantes.

 

A formação dos times no futebol romano, com defensores médios e atacantes, certamente já havia sido concebida, cerca de 450 anos antes, nas conversas entre o imperador Augusto e seu conselheiro Lúminus, na ilha de Capri, esquema diagramado nos desenhos de Venísia de Mycenes.

Esta é a reprodução do afresco (referido no texto) encontrado nas ruínas de Pompéia durante as escavações feitas no século 18. Note-se a espécie de buril, o stilus dos romanos, um instrumento feito de madeira, metal, osso etc. com extremidades em ponta (para riscar) e espátula (para apagar). Da palavra stilus originou-se estilo (modo de escrever). Além do papiro, as inscrições e os desenhos eram feitos sobre madeira, pedra, metal, terracota, ou tabuinhas com superfície revestida de cera.